domingo, 8 de maio de 2022

Sobre a luz...

  Muitas vezes observo e até fiz alguns posts sobre a incidência da luz e a forma como a luminosidade se expressa, transforma e nos apresenta o mundo. Um dia Jesus disse que ‘se teus olhos forem bons, todo teu ser será luminoso, mas se teus olhos forem maus, que grande escuridão será’...

A reflexão que quero trazer hoje é sobre a luz, sobre nossa necessidade dela, sobre a escuridão que nos envolve a cada dia e sobre o quanto se precisa de iluminação. Nossa carência de luz tem levado-nos a um sem fim de becos escuros, de guetos espirituais...
Nossa luz se esvai, numa terra que se escurece, por falta de entendimento, por ignorância e principalmente por maldade pura e falta de empatia, falta de perdão, falta de olhares bondosos. Este mundo que se ‘apequena’ a cada dia, se conforma a uma tela de 4,5 polegadas, com milhões de cores em milhares de megapixels, mas cada vez menos iluminados...
A história nos ensina que a iluminação se dá na dificuldade, Sócrates testava seus limites físicos enquanto meditava sobre as verdades filosóficas. Buda se iluminou em jejuns e meditações, observando os podres do reino, Sidarta se tornou Buda. Jesus ascendeu no deserto em jejuns, no jardim das oliveiras e por fim no Gólgota, ao render-se ao plano maior. Gandhi iluminou-se em um jejum social e pacífico, caminhando e lutando por seu povo sem tocar em uma arma, sem brigar ou ofender quem quer que seja...
A incidência da luz é o sair da escuridão, a visão é sair da escuridão. A escuridão e as trevas são nossos julgamentos errados, nosso ego inflado, nossa pseudo sabedoria e nossa pretensão em ser algo. O equilíbrio do ser humano é saber ser poeira cósmica de um ínfimo instante e ainda assim ser um ser humano único. A escuridão não é nada mais do que a ausência de luz. Assim como o mau é a ausência do bem.

domingo, 24 de abril de 2022

Eu não vou para o inferno...

 


As definições etimológicas da palavra inferno vem desde os gregos e basicamente concordam na questão de serem lugares baixos, mundo inferior, o reino de Hades...

Nossa fundamentalista criação cristã nos apresentou o ‘medo do inferno’, de ir para o inferno, do castigo, da danação eterna. Aprofundada de maneira ainda mais cruel nas ramificações evangélicas pentecostais e neopentecostais. Destas últimas fiz parte e me tornei por muitos anos pastor e pregador, ensinando as escrituras e tentando ‘tirar’ o máximo de pessoas deste ‘destino’.

Depois disto tive a minha própria viagem ao inferno e de lá consegui sair...

E então para que falar disto e afirmar isto?

Porque eu não vou ir para o inferno, não por ser santo, ou por ser ‘bonzinho’, mas simplesmente por saber que não é assim, por ter aprendido, conhecido e compreendido de uma maneira muito clara que:

Só vai ir para o inferno quem afirma que este ou aquele irá. Só irá para o inferno quem faz da vida do seu próximo um inferno. Quem exige condutas e moral sem cumprir estas mesmas condutas. Quem na ganância se esqueceu do ‘de graça recebestes, de graça dai’. Só vai para o inferno os que se autodenominam pastores, líderes e guias. Só vão para o inferno aqueles que se esqueceram que precisam fazer o céu aqui na terra para o seu próximo e não para si mesmo.

Só irão para o inferno os fariseus e doutores da lei de hoje, que negociam nos templos à semelhança dos fariseus dos tempos de Jesus, mas que hoje vendem tantas coisas e até o ar e a água como se fosse santa, ungida ou sabe-se lá o quê...

O inferno não foi feito para o sofrimento do homem que já sofre e luta para viver e sobreviver neste mundo injusto e cada dia pior. O inferno foi feito para os que negociam o perdão, vendem o céu, sobrecarregam os pobres e roubam o templo. Entenda-se o templo aqui como o corpo de cada um onde habita o Seu espírito.

Só vai para o inferno, para os lugares baixos, são os que vibram nesta frequência baixa, medíocre e rasa, sem ver a grandeza de cada ser humano, expressão maior do amor de Deus.

Que cada um de nós saiba que o céu é aqui e começa aqui. E está no coração dos que promovem a paz. A eternidade é aqui, já esta acontecendo e cabe no sopro da vida que se vive de maneira digna.

Só vai para o inferno aqueles que se acham mais filhos de Deus que outros. Que colocam seus adesivos e camisetas se dizendo filhos do Rei, como se os outros todos não o fossem. Que usam carros com ‘propriedade de Jesus’, mas que não dão nem carona para os milhares de outros coerdeiros dos mesmos bens...

O inferno mão é um lugar, mas um estado de espírito opressor que faz com que aqueles que deveriam ser os ‘homens e mulheres de Deus’ se tonem os algozes dos irmãos, mercadores de bênçãos e vendedores da graça...


sexta-feira, 19 de novembro de 2021

 

                Tem um texto na Bíblia que eu gosto muito que é a segunda multiplicação dos pães, que está lá no capítulo 15 de São Mateus, onde Jesus chama os discípulos e diz: “Tenho compaixão desta multidão, já faz três dias que eles estão comigo e nada têm para comer. Não quero mandá-los embora com fome, porque podem desfalecer no caminho”.

            Tão diferente do show business evangélico de hoje, onde a fome do povo é o segundo negócio mais explorado no templo, o primeiro é a arrecadação de dízimos, ofertas e vendas de souvenires. E sei que quem estiver lendo isto e for destes tantos que só exploram a fé, irão dizer junto com os discípulos que: “onde vamos encontrar alimento suficiente para alimentar tanta gente?”...

            Aí Ele faz a pergunta alvo deste texto: “Quantos pães vocês têm?”

            A solução apresentada para a fome, por Jesus, foi uma pergunta aos que almejavam serem pastores e apóstolos: Quantos pães vocês têm?

            Ou seja, o que vocês têm para dar e não o que vocês podem tirar. O que vocês oferecem? O que vocês vão fazer para resolver a fome é ver o que vocês têm, é dar o que vocês têm. É olhar e perguntar o que eu tenho para dar? Não! É o que vocês têm, é do que se têm e não do que não se quer mais que se deve tirar a solução. E mais do que isto é do que têm os pseudos apóstolos que vai trazer a solução para a fome...

            Não custeando shows financiados por criminosos e vendendo lanches, camisetas e outras coisas ou ainda tirando ofertas mil, mas sim abrindo mão do têm, do que possuem. Nem com campanha do quilo, ou ainda uma sopa de vez em quando para os pobres...

            Sei que alguns devem estar desconfortáveis, mas é este o ponto: Como ficar confortável diante de tanto absurdo, de tanta hipocrisia? Dia após dia o que vemos é a exploração da fé e da fragilidade das pessoas. Tão diferente da frase inicial de Jesus: Tenho compaixão...

            Tenham compaixão e rasguem suas gravatas e desgrenhem seus cabelos engomados e se arrependam de suas falácias, de suas arrogâncias e maldades. Querem ser ‘homens e mulheres de Deus’? Sejam, mas sempre lembrando da orientação dada a quem deseja este caminho: Contentem-se com pouco, se tiverem duas roupas deem uma, se desfaçam da soberba e sejam simples e humildes... Como Ele foi.


quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Bom demais?

 

            Na construção aristotélica da virtude ele define que o meio termo, a mediania é onde habita a sabedoria, fugindo do excesso e da falta. Que um homem será um homem bom, ou homem de bem se tiver prudência e equilíbrio.

            Por outro lado temos aprendido que o mercado de trabalho é muito competitivo e que quanto mais você se especializar e se capacitar, mais apto você estará para desempenhar uma determinada função ou atividade.

            Mas o que tenho visto e sentido na pele é que a medida que me capacito, mais difícil fica de conseguir um lugar de trabalho. Já ouvi diversas vezes que o meu currículo é bom demais...

            Como assim? Então teremos de ‘esconder’ capacidades e aptidões para que os interlocutores não se sintam ameaçados, para que não tirem conclusões a cerca de nossas expectativas?

            Ou será que o nível é tão medíocre que há uma preferência pela mediocridade ao invés de se buscar a excelência?

            Tenho lutado durante um período grande demais para me capacitar, me equipar e me reinserir no mercado de trabalho, me recolocar de maneira minimamente tranquila e o que escuto é que meu CV é bom demais, já ouvi de um supervisor certa vez que ele não levaria meu currículo para que sua vaga não fosse ameaçada. Não sou uma ameaça, sou um homem simples de 54 anos, fazendo sua segunda graduação e com algumas capacitações que tenta dia após dia ter o seu lugar ao sol.

            Já ajudei muita gente, fui canal de emprego para muitos, e nunca me senti ameaçado. As pessoas hoje em dia, até num lugar onde todos tem a mesma função e o mesmo salário tentam derrubar umas as outras sem compreender como funciona uma organização, empresa ou projeto. Sem entender que cada um de nossos saberes, sejam teóricos os empíricos, experienciais ou não, tem o seu valor e sua importância.

            Será que há um ser bom demais? Claro que não, nem eu, nem ninguém, todos temos limitações e dificuldades. E ninguém que precise desmerecer alguém para se sentir minimamente importante deve ser acolhido. Nosso valor é mostrado na eficácia de nossas atitudes e ações.

            Espero de fato que as pessoas encarregadas das captações de talentos compreendam que é muito mais inteligente contratar uma pessoa bem qualificada e que esta disposta a trabalhar do que qualquer pessoa que seja que não dá valor para a oportunidade que recebe.


terça-feira, 10 de agosto de 2021

Sobre o velho e o mar e sobre vagas de emprego...

 

            O mercado de trabalho hoje em dia está impiedoso e cruel. Tanto é o desalento que nos causa que nos lembra o livro de Ernest Hemingway. O Velho e o Mar. Onde o velho pescador se debate na pesca de sua vida, o maior peixe, o mais perseguido por ele e após o capturar o reboca em seu pequeno barco de pesca e ali vivencia a sua grande aventura...

            Somos destruídos aos poucos, sem no entanto sermos derrotados, ou será que o somos?

            São anos de estudo e dedicação, voluntariado e disposição. Construindo um currículo e uma existência, se renovando a cada nova esperança, a cada nova possibilidade. Para ali adiante receber um outro não, um depois ou um talvez. Aos poucos desacreditamos, assim como o protagonista de Hemingway, vimos nosso peixe ir sendo devorado por peixinhos miúdos e pássaros oportunistas durante a nossa trajetória. A construção de um pensar livre, de uma consciência social pertinente e uma quebra de paradigmas constante e inequívoca se fazem necessárias. Mas a solidificação de uma esperança consistente acaba se desfazendo a cada negativa recebida.

            Como ouvi hoje em uma entrevista do Professor Clóvis de Barros Filho, que se Sócrates fosse entrevistado por um chefe de recursos humanos da atualidade, ele seria preterido e em seu lugar seria colocado um imbecil. Não há como ficarmos contentes ao vermos a incapacidade de se verificar talentos e quanto de gente boa que não acha seu lugar ao sol, pois são obedecidos parâmetros e não são se vê pessoas. E ainda na mesma entrevista ele conta de uma vez que cortaram o seu microfone em um congresso de ética, onde ele foi ainda desconhecido. Anos mais tarde ele volta ao mesmo congresso como palestrante e ali não cortam seu microfone, pois no segundo momento o seu discurso era legitimado pelos seus títulos, ainda que fosse o mesmo discurso.

            Faz dez anos que estou me reconstruindo e sete anos consecutivos que entro janeiro desempregado, já ouvi tantas vezes que meu currículo é bom demais que tenho até medo de atualizar ele. Nessa minha reconstrução estou na segunda graduação e na segunda especialização, fora toda a experiência obtida em diversas áreas. Trabalhos voluntários e sociais sem fim e me vejo como o velho, assistindo meu pescado ser devorado por quem nunca madrugou na lida, nem jamais sangrou as mãos na luta com a força do peixe e do mar...

            E o que resta?

            Seguir em frente, continuar estudando, lutando e pescando, envelhecendo e sendo destruído, sem no entanto se deixar derrotar ou sucumbir pela injustiça de um mundo ingrato.


quinta-feira, 15 de julho de 2021

Sobre importância, juízos e esperança...

 

         Importar-se, se importar...

         Ter relevância, trazer para dentro, para junto, fazer parte e dar valor. São modos de fazer de algo ou de alguém se tornar único, fundamental... importante.

         A importância de alguém não é mensurada por títulos, ou cargos, não se mede pelo quanto se ganha ou o tanto que se estudou.

         Algumas vezes fazemos pedestais para pessoas que nem mesmo lembram de nós. Podemos saber nossa importância pela prontidão que nos respondem, pelas atitudes que são dispensadas para nós e vice versa. Elegemos muitas vezes pessoas como importantes mas que não são.

         Vivemos dias de julgamentos constantes e ininterruptos, de todos os lados e de todo tipo de pessoas. Somos julgados pelo que fizemos um dia, somos julgados também pelo que deixamos de fazer. Na maioria das vezes podemos fazer mil coisas boas e uma errada bastará para que sejamos desqualificados.

         Faz anos que venho construindo minha trajetória, não foi fácil, não é fácil, mas por vezes parece que há sempre uma avaliação, como se uma espada pendesse sobre a cabeça, pronta para sentenciar o fim de uma existência.

         Mas seguimos em frente, dia após dia, trazendo a mente o que nos pode dar esperança (Lamentações de Jeremias), refazendo e reconstruindo tudo de novo, quantas vezes for preciso.

         Poucos lembram de nossos bons atos, mas eles estão lá, falando em nosso favor ao universo. Nestes dias difíceis, onde até nossa empatia é vista com maldade, onde pessoas que não se importam, julgam nosso importar-se com os outros. Precisamos fazer mais e melhor, pelos que sofrem e por aqueles que importam. Para aqueles que nos dão as costas ou que preferem abreviar nossa partida, deixamos nosso lamento, mas sem deixar que continuem a nos ferir tanto.

         Se me importo, que te importa?